Trump retira EUA do IPCC e da convenção do clima da ONU – 08/01/2026 – Ambiente

Trump retira EUA do IPCC e da convenção do clima da ONU – 08/01/2026 – Ambiente

O presidente Donald Trump retirou nesta quarta-feira (7) os Estados Unidos de mais de 60 organizações e tratados internacionais, entre eles dois fundamentais para combater a crise climática. A lista engloba grupos que, em sua opinião, “já não servem aos interesses” americanos.

A ordem da Casa Branca envolve 31 organizações das Nações Unidas e 35 entidades não pertencentes à ONU. Na lista está a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, conhecida pela sigla em inglês UNFCCC. O tratado sustenta os principais acordos internacionais sobre esta questão.

O pacto assinado em 1992 estabelece a cooperação entre países para reduzir as emissões de gases causadores do aquecimento global e adaptar-se ao impacto da mudança climática. Os Estados Unidos são o segundo maior emissor da atualidade, atrás apenas da China. Se considerado o histórico, são o maior de todos os tempos.

Também está na lista o IPCC, sigla em inglês para Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, órgão científico ligado às Nações Unidas que reúne cientistas renomados de todo o planeta para atualizar periodicamente o conhecimento sobre o tema e amparar as decisões dos países.

O órgão é fundamental para avaliar a ciência do clima junto a outras organizações, como a Irena (Agência Internacional de Energias Renováveis), além da ONU Oceanos e da ONU Água.

O último relatório do IPCC foi publicado a partir de 2021, em três partes que abordam áreas diferentes da ciência climática. Os EUA são o país com o maior número de autores em cada um dos documentos, conforme os dados oficiais.

A primeira parte, que versa sobre as bases físicas da mudança do clima, teve a colaboração de 234 cientistas, sendo 25 americanos. Na segunda etapa, a respeito da adaptação e vulnerabilidade, 34 dos 330 pesquisadores eram cidadãos do país. E o terceiro documento, acerca da mitigação das emissões, envolveu 20 especialistas americanos de um total de 239.

À Folha, o IPCC diz que mais de 50 cientistas dos EUA estão confirmados na elaboração do próximo relatório, com conclusão prevista em 2029. “Como seus colegas em outros lugares, eles continuam a dedicar voluntariamente seu tempo e experiência”, declarou a instituição, em nota.

Apesar de ter retirado novamente os EUA do Acordo de Paris logo na sua volta à Presidência, Trump não havia removido o país da UNFCCC e do IPCC até então.

“Muitos desses órgãos promovem políticas climáticas radicais, governança global e programas ideológicos que conflitam com a soberania e a força econômica dos EUA”, diz a nota da Casa Branca.

O comunicado afirma que as retiradas “encerrarão o financiamento e o envolvimento dos contribuintes americanos em entidades que promovem agendas globalistas em detrimento das prioridades dos EUA”.

Em nota divulgada nesta quarta (8), o Departamento do Tesouro afirmou que os EUA também sairão imediatamente do Fundo Verde para o Clima (GCF, na sigla em inglês), que faz parte da convenção do clima.

“Nossa nação não financiará mais organizações radicais como o GCF, cujos objetivos contrariam o fato de que energia acessível e confiável é fundamental para o crescimento econômico e a redução da pobreza”, disse o secretário do Tesouro, Scott Bessent.

O secretário-executivo da UNFCCC, Simon Stiell, disse que o país foi fundamental para a criação da convenção do clima e lamentou a saída do tratado.

“Enquanto todas as outras nações estão avançando juntas, este último recuo da liderança global, da cooperação climática e da ciência só pode prejudicar a economia, os empregos e o padrão de vida dos EUA, à medida que incêndios florestais, inundações, megatempestades e secas pioram rapidamente”, declarou.

“É um gol contra colossal que deixará os EUA menos seguros e menos prósperos.”

Stiell afirmou que a retirada significará energia, alimentos, transporte e seguros menos acessíveis para famílias e corporações americanas.

“Também significará menos empregos na indústria americana, enquanto todas as outras grandes economias aumentam seus investimentos em energia limpa, impulsionando o crescimento econômico e a segurança energética”, disse, lembrando que as energias renováveis ultrapassaram o carvão como a principal fonte de energia elétrica do mundo em 2025.

O secretário afirmou que as portas permanecem abertas para os EUA voltarem à UNFCCC no futuro, como já aconteceu no passado com o Acordo de Paris. “Enquanto isso, o tamanho da oportunidade comercial em energia limpa, resiliência climática e eletrotecnologia avançada continua grande demais para que investidores e empresas americanas ignorem.”

A União Europeia também criticou duramente a decisão de Trump e prometeu continuar a enfrentar a crise climática com outros países. A vice-presidente executiva do bloco para Transição Limpa, Justa e Competitiva, Teresa Ribera, afirmou que “a Casa Branca não se importa com o meio ambiente, a saúde ou o sofrimento das pessoas”.

“A paz, a justiça, a cooperação ou a prosperidade não figuram entre suas prioridades”, acrescentou.

No mesmo tom, o responsável pelas políticas climáticas do bloco, Wopke Hoekstra, lembrou que a UNFCCC “sustenta a ação climática global” e reúne as nações na luta coletiva contra a crise.

“A decisão da maior economia do mundo e segundo maior emissor de afastar-se dela é lamentável e infeliz”, afirmou Hoekstra em publicação no LinkedIn.

“Continuaremos apoiando inequivocamente a pesquisa climática internacional como base de nossa compreensão e nosso trabalho”, disse. “Também continuaremos trabalhando na cooperação climática internacional.”

John Kerry, enviado para o Clima durante o governo Joe Biden, afirmou que a saída dos EUA da convenção do clima é “um presente para a China e um cartão de saída da prisão para os poluidores que querem evitar responsabilidade”.

Trump baseia sua política interna nos combustíveis fósseis e despreza abertamente o consenso científico de que a atividade humana está aquecendo o planeta. Durante seu discurso na Assembleia-Geral da ONU em setembro do ano passado, chamou a mudança climática de “golpe”.

Além disso, seu governo não enviou representantes à COP30, cúpula climática realizada em novembro em Belém. As conferências da ONU sobre mudanças climáticas são organizadas justamente pela UNFCCC.

David Widawsky, diretor do WRI (World Resources Institute) nos EUA, afirmou que a saída do país da UNFCCC é um erro grave e que desperdiça a vantagem americana. “O acordo de 30 anos é a base da cooperação internacional sobre o clima. Afastar-se não apenas coloca a América à margem —retira os EUA completamente da arena.”

Delta Merner, da União dos Cientistas Preocupados, afirmou que saída do IPCC não fará a ciência desaparecer. “Individualmente cientistas americanos ainda podem contribuir, mas nosso país não poderá mais ajudar a orientar as avaliações científicas nas quais governos de todo o mundo confiam.”

O próximo relatório do IPCC, que deve ser concluído até 2029, já sofreu um boicote dos EUA antes mesmo da saída do painel internacional. Em fevereiro de 2025, o governo Trump havia interrompido a participação de cientistas americanos em uma reunião preparatória para a nova análise que aconteceu na China.

“Não é o fim do regime climático internacional, mas é um teste de estresse sério”, diz Natalie Unterstell, presidente do think tank Instituto Talanoa. “Se outros países seguirem Trump ou se os demais não assumirem a responsabilidade de liderar, este será um momento de baixa, com custos reais em coordenação, ambição e financiamento.”

Unterstell afirma que o sistema poderá atravessar o período sem colapso, caso novas lideranças se apresentem. “A diferença estará na reação coletiva e ela precisa ser rápida.”

Fonte Original do Artigo: redir.folha.com.br

Postagens Relacionadas

Anvisa suspende suplementos alimentares de duas marcas; confira

Anvisa suspende suplementos alimentares de duas marcas; confira

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) suspendeu três suplementos da marca Cycles Nutrition por conterem substâncias que não foram avaliadas…
Museu do Louvre eleva em 45% valor para estrangeiros – 27/11/2025 – Turismo

Museu do Louvre eleva em 45% valor para estrangeiros…

O Louvre, o museu mais visitado do mundo, aumentará em 45% o preço dos ingressos para visitantes extraeuropeus a partir de…
Dell começa fabricação de computadores para data centers de IA no Brasil

Dell começa fabricação de computadores para data centers de…

A fabricante de computadores Dell anunciou nesta terça-feira (20) o início da fabricação de máquinas voltadas ao desenvolvimento de inteligência artificial…