Parentalidade é ocupação vitalícia, de tempo integral – 02/02/2026 – Vera Iaconelli
- Educação
- 02/02/2026
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É comum associarmos parentalidade a filhos pequenos, esquecendo que se trata de ocupação vitalícia de tempo integral. Talvez essa percepção se justifique porque os primeiros anos até a adolescencia são de muito trabalho e dedicação e as questões se concentram nessa fase. Isso significa que o resto da lida parental vai por gravidade? Sim e não.
Com sorte, os pais se desincumbem de manter os filhos vivos e longe de perigos. Sai a trabalheira e a ocupação, fica a preocupação e a torcida diante da complexidade da vida adulta. Filhos continuam a ser nossos grandes investimentos afetivos, com a cota de atrito que qualquer relação dessa magnitude implica.
Mas algo muda nesse investimento amoroso, algo que talvez explique a sensação de anacronismo da parentalidade. A infância implica no apaixonamento da criança pelos pais, a quem ela é condenada a amar por força da dependência absoluta. Leva alguns anos até que a autonomia e a crítica façam barreira a essa fé incondicional que os pequenos têm nos cuidadores. Processo doloroso e necessário se quisermos criar adultos menos enlouquecidos.
O auge desse processo é a adolescência, quando eles exageram na dose e nos julgam sem dó nem piedade por sermos nós mesmos. Mas essa época ainda é cheia de paixão, e, se a crítica é tão dura, é para tentar desmontar o imenso boneco de Olinda que a infância criou em torno dos pais. Quanto mais os cuidadores foram idealizados, mais eles deverão ser condenados por não corresponderem às expectativas. (Fica a dica: tentar corresponder é muito pior. Algo sobre os pais tem que cair.)
O adulto, independente da idade, é alguém que assume as recaídas nessa idealização, poupando os pais de queixas infantis. Isso significa a chance de uma convivência muito mais respeitosa e gratificante do que antes, mas, por outro lado, muito menos passional. É apenas uma chance, pois o filho pode se revelar alguém com quem temos pouca afinidade ou nenhum interesse comum, acontece.
O que ocorre com a paixão da infância e da adolescência por nós? Ela será transferida para as outras relações e para as outras ocupações dos jovens adultos: amores, trabalho, amigos, a própria casa, os próprios filhos. Esse é um momento delicado para os pais que estejam esperando que, após décadas de empenho e sacrifícios em nome da prole, terão produzido um ser humano que continua a colocá-los no centro, sustentá-los física e emocionalmente na velhice. Cada geração faz a sua aposta mais ou menos realista. “Não tive filhos para que eles sejam isso ou aquilo” é uma das frases que se ouve de alguns pais, completada por algum gosto pessoal e fútil. Sugiro que se perguntem por que os tiveram, afinal. Temo que a resposta não seja boa.
Os netos costumam ocupar o vácuo da relação de apaixonamento recém-perdida com os filhos, nada mal. Mas, para além do amor, podem aparecer disputas, ciúmes e competições revelando que alguém não está conseguindo fazer a lição de casa do desapego geracional.
O filho se torna visita esperada e bem-vinda, e os pais também, quando ambos assumem suas mancadas sem jogar sobre o outro falsas expectativas. Se tiverem admiração e afinidade mútua, aí já é outro departamento, aquele que chamamos felicidade.
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