Doença causou morte de Manoel Carlos? Médica explica caso do autor

Doença causou morte de Manoel Carlos? Médica explica caso do autor

Manoel Carlos, autor de novelas históricas e responsável por personagens icônicos da TV, morreu no dia 10 de janeiro aos 92 anos, após anos convivendo com a doença de Parkinson. Diagnosticado há alguns anos, o escritor seguiu ativo intelectualmente até a velhice, o que levanta dúvidas comuns entre o público: como o Parkinson afeta, na prática, o corpo? E o que costuma levar à morte de pacientes com Parkinson?

Para esclarecer essas questões, a CARAS Brasil conversou com a médica Roberta França, médica especialista em longevidade consciente e saúde mental, que explicou os impactos da doença de Parkinson, os riscos em estágios avançados e a importância do suporte familiar e multidisciplinar.

Atividade intelectual protege o cérebro no Parkinson?

O autor escreveu novelas até uma idade avançada e assinou ‘Em Família’ aos 80 anos. Mas esse esforço mental funciona como uma proteção real contra a progressão da doença?

Segundo a especialista, a resposta exige cautela. “A doença de Parkinson é uma doença neurodegenerativa, progressiva e inexorável. Ou seja, trata-se de uma condição que afeta todo o sistema neurológico, e não apenas a parte motora, e que, até a presente data, não possui medicação capaz de modificar a evolução da doença”.

Ela explica que o Parkinson é frequentemente associado ao tremor, mas vai muito além disso. “O paciente, além de apresentar um caminhar mais arrastado e dificuldade para realizar movimentos amplos, passa a ficar mais rígido. E isso não se limita apenas à marcha: ações simples, como levar um copo à boca ou usar um garfo, podem se tornar difíceis”.

Quando o assunto é escrever, o impacto é direto. “Escrever, por exemplo, é uma atividade complexa, pois exige coordenação motora fina, habilidade que vai sendo progressivamente perdida na doença de Parkinson”. Com o avanço do quadro, a letra muda e pode chegar um momento em que o paciente não consegue mais escrever. “O tremor e a perda do controle motor fino dificultam muito essa atividade”.

Ainda assim, há um ponto de esperança. “Quando o paciente mantém uma vida ativa, realizando fisioterapia, atividade física regular, estimulação cognitiva, terapia ocupacional e fonoaudiologia, os impactos motores da doença podem ser significativamente minimizados“. A médica alerta, porém, que a cognição também pode ser afetada ao longo do tempo, inclusive com risco de demência associada ao Parkinson.

O que costuma levar à morte em casos avançados de Parkinson?

A causa da morte de Manoel Carlos não foi divulgada, mas a dúvida é comum entre familiares de pacientes idosos com Parkinson avançado.

De acordo com Roberta França, os riscos vão além da mobilidade. “A doença de Parkinson afeta a parte motora de forma ampla, e isso não se restringe apenas à capacidade de caminhar”. Problemas intestinais, refluxo e perda de força vocal são frequentes. “Muitas vezes, ele inicia a fala normalmente, mas, aos poucos, a voz vai ficando cada vez mais fraca, até quase desaparecer”.

Esse comprometimento favorece engasgos. “Isso ocorre devido ao comprometimento da musculatura orofaríngea, o que também favorece episódios frequentes de engasgo. Esses engasgos podem levar a pneumonias por broncoaspiração”. Além disso, a limitação dos movimentos pode deixar o paciente acamado, aumentando ainda mais o risco de infecções respiratórias.

“Assim, em pacientes com doença de Parkinson em estágio avançado, as complicações respiratórias são uma das principais causas de óbito”, afirma. Há ainda o risco aumentado de AVC e a progressão da demência associada à doença.

Família e equipe multidisciplinar fazem diferença

Para a médica, nenhum paciente com Parkinson evolui bem sem suporte. “Um paciente com doença de Parkinson, sem o suporte de uma equipe multidisciplinar, dificilmente terá uma evolução positiva”.

Ela destaca que o diagnóstico precoce muda o cenário. “Quando o diagnóstico é feito precocemente, o tratamento medicamentoso é iniciado cedo e o paciente passa a realizar atividade física regular desde os primeiros sinais da doença, os resultados costumam ser melhores”.

O apoio emocional também é essencial. “A aceitação da doença de Parkinson é um processo difícil. Como os sintomas motores são visíveis, muitos pacientes sentem vergonha do tremor, de deixar cair objetos ou de sujar a roupa durante as refeições”. Sem apoio, o isolamento social e a depressão se tornam riscos reais.

Segundo a especialista, esse suporte pode garantir anos de convivência com a doença, com mais dignidade e qualidade de vida: “Por isso, a família, os amigos e toda a rede de apoio são fundamentais para ajudar o paciente a aceitar o tratamento e aderir às terapias”.

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Dra. Roberta França é médica geriatra e psiquiatra (CRM: 52744859), com 22 anos de formação pela Universidade Gama Filho. É pós-graduada em Geriatria e Gerontologia pela Universidade Estácio de Sá e em Psiquiatria. Membro da Comissão de Direito da Pessoa Idosa (OAB/RJ), integra também a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, a Sociedade Brasileira de Psiquiatria e a Sociedade Brasileira de Neuropsiquiatria Geriátrica. Professora da ABRAZ (Associação Brasileira de Alzheimer) e palestrante em temas voltados à medicina geriátrica e psiquiátrica, é idealizadora do projeto social Cantinho da Geriatria, que impacta mais de 250 mil pessoas com conteúdo diário para a terceira idade nas redes sociais. Coautora do livro Estratégia de Vencedores, foi condecorada com a Medalha Pedro Ernesto e homenageada com Moção Honrosa pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro pelos relevantes serviços prestados aos idosos. Em 2023, foi reconhecida como Medicina Destaque pela mesma instituição.



Fonte Original do Artigo: caras.com.br

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