Derretimento da Groenlândia preocupa cientistas – 08/01/2026 – Ambiente
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- 10/01/2026
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Quando os pesquisadores chegaram pela primeira vez ao seu acampamento de campo no Domo de Prudhoe, no topo da camada de gelo da Groenlândia, sentiram como se tivessem sido engolidos por um monstro.
A montanha de gelo no noroeste da Groenlândia tinha mais de 80 quilômetros de largura e 488 metros de altura. A temperatura em seu cume estava bem abaixo de -18°C. O experimento dos cientistas lá —um esforço sem precedentes para extrair rocha matriz de baixo da camada de gelo— era rotineiramente interrompido por ventos uivantes e nevascas tão densas que bloqueavam o sol. Era difícil imaginar que essa formidável extensão congelada pudesse algum dia desaparecer.
Mas as rochas que eles descobriram naquela expedição de 2023 contêm assinaturas químicas mostrando que o Domo de Prudhoe derreteu completamente nos últimos 10 mil anos —e pode em breve sofrer o mesmo destino em meio às mudanças climáticas modernas.
Os resultados publicados na segunda-feira (5) na revista Nature Geoscience contêm um alerta para um planeta em aquecimento, disse o autor principal Caleb Walcott-George.
O estudo sugere que grandes porções da Groenlândia estavam livres de gelo no passado recente da Terra, quando as temperaturas globais não eram muito mais altas do que são agora. Se o mesmo derretimento ocorresse hoje, elevaria os níveis médios do mar em qualquer lugar entre 19 e 73 centímetros.
Os pesquisadores poderaram que o derretimento atual pode não emular com precisão o que aconteceu no passado. A causa das mudanças climáticas modernas —poluição principalmente gerada na queima de combustíveis fósseis— é distinta das leves oscilações na órbita da Terra que desencadearam o aquecimento há milhares de anos.
Mas os pesquisadores disseram que suas descobertas poderiam ser usadas para melhorar os modelos de computador utilizados para simular como a camada de gelo responde ao aquecimento.
“Entender como a camada de gelo evoluiu no passado nos permite fazer melhores previsões sobre nosso futuro”, disse Walcott-George, geólogo glacial da Universidade de Kentucky (EUA).
O Ártico é o lugar que aquece mais rapidamente no planeta, e a Groenlândia contribui mais para a elevação dos oceanos do que qualquer outra massa de gelo na Terra. Se toda a camada de gelo derretesse, aumentaria os níveis globais do mar em 7,3 metros.
Mas os cientistas não têm certeza exatamente do que acontecerá à medida que as temperaturas globais continuarem a subir, disse Jason Briner, geólogo da Universidade de Buffalo e coautor do novo estudo.
Mudanças na elevação e na capacidade de reflexão da camada de gelo podem desencadear ciclos que diminuem o ritmo do derretimento ou o aceleram. Algumas pesquisas sugerem que a Groenlândia pode estar se aproximando de um ponto de inflexão em direção a um declínio irreversível.
Tal catástrofe já aconteceu antes, disse Briner. Em uma análise de 2016 de amostras de baixo da parte mais espessa da camada de gelo, ele ajudou a mostrar que a rocha matriz foi exposta à luz solar em algum momento nos últimos 1,1 milhão de anos.
As descobertas levantaram duas questões urgentes: qual era a temperatura da Terra quando o derretimento ocorreu? E quão rápido o gelo desapareceu?
A expedição ao Domo de Prudhoe —parte de um projeto multimilionário chamado GreenDrill— tinha como objetivo resolver esses mistérios. Ao perfurar em busca de rochas sob diferentes partes da camada de gelo e testar essas amostras para ver quando foram expostas pela última vez à luz solar, os pesquisadores poderiam fornecer uma imagem mais clara do que aconteceu quando a Groenlândia derreteu.
Joerg Schaefer, geoquímico climático do Observatório Terra-Doherty da Universidade Columbia que liderou o projeto com Briner, comparou-o a um exame médico de alto risco.
“Estamos basicamente fazendo biópsias”, disse ele ao The Washington Post em 2023, “que esperamos nos dizer quão sensível o paciente é ao aquecimento contínuo —e quanto aquecimento é fatal”.
Mas as condições hostis no extremo norte da Groenlândia quase frustraram o experimento. Nevascas atrasaram os aviões que transportavam o equipamento de perfuração para o gelo. Uma tempestade violenta de vento prendeu os pesquisadores dentro de suas tendas por dias. Então o gelo ao redor da broca rachou, reduzindo o progresso da equipe a um ritmo lento.
Finalmente, no último dia antes de os cientistas precisarem começar a embalar seu equipamento, eles perfuraram 488 metros de gelo e alcançaram os sedimentos e rochas abaixo.
“Foi como um grande triunfo”, lembrou Walcott-George. Foi apenas a terceira vez que alguém extraiu material de baixo das partes mais profundas da camada de gelo; os cientistas têm menos rochas de baixo da Groenlândia do que da superfície da Lua.
Mas ele não sabia exatamente o que havia descoberto até vários meses depois, quando Walcott-George finalmente examinou a amostra em um laboratório no Texas.
Para descobrir há quanto tempo o material estava coberto por gelo, ele usou uma técnica chamada datação por luminescência.
Quando grãos de areia são enterrados, suas estruturas cristalinas podem capturar elétrons criados pela atividade radioativa nas rochas e solo circundantes. Quanto mais tempo os sedimentos permanecem na escuridão, mais elétrons se acumulam. Mas assim que os cristais são expostos à luz, eles liberam os elétrons armazenados em uma súbita explosão.
Se os cientistas puderem contar esses elétrons liberados e calcular quanto tempo teria levado para eles se acumularem, podem determinar quando os sedimentos viram o sol pela última vez.
Assim que viu os resultados de sua análise, Walcott-George disse que pensou consigo mesmo: “Meu Deus”.
A equipe do GreenDrill esperava descobrir que o Domo de Prudhoe não havia derretido desde o último período interglacial —período geológico há mais de 100 mil anos, quando as temperaturas globais eram ligeiramente mais quentes do que são hoje.
Mas as medições de luminescência sugeriram que os sedimentos haviam sido enterrados há apenas cerca de 7.100 anos. Isso significa que o gelo no topo do Domo de Prudhoe desapareceu em condições semelhantes ao clima atual, quando o Ártico estava cerca de 3°C a 5°C mais quente do que era no século 19.
A descoberta reforça um crescente corpo de evidências sugerindo que a camada de gelo da Groenlândia é extremamente suscetível a variações de temperatura, disse Briner.
A pesquisa ajuda a ilustrar o impacto da amplificação ártica, que faz com que as regiões polares se aqueçam mais rapidamente do que o resto do globo. O fenômeno é impulsionado pela perda de gelo marinho, que expõe a superfície escura do oceano à radiação solar e faz com que absorva mais calor.
Estudos mostram que as temperaturas do Ártico aumentaram 3°C apenas nas últimas cinco décadas —atingindo níveis de calor semelhantes a quando o Domo de Prudhoe desapareceu pela última vez.
“Isso nos dá uma noção de que X mudança climática equivale a X mudança no volume de gelo”, disse Briner. “Acho que é um ponto de dados realmente importante dessa perspectiva.”





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