Aquecimento do Ártico deixa rios com água laranja e tóxica – 20/12/2025 – Ambiente
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- 14/01/2026
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As temperaturas e precipitações recordes no Ártico durante o último ano aceleraram o derretimento do permafrost (camada congelada do solo) e levaram minerais tóxicos para mais de 200 rios no norte do Alasca (EUA), ameaçando o habitat de salmões, de acordo com um relatório divulgados por cientistas do governo americano.
O levantamento, compilado por dezenas de pesquisadores e coordenado pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (Noaa, na sigla em inglês), documentou rápidas mudanças ambientais desde o arquipélago de Svalbard, na Noruega, até a camada de gelo da Groenlândia e a tundra do norte do Canadá e do Alasca.
De outubro de 2024 a setembro de 2025, o período, quando o solo começa a congelar até o final do verão, as temperaturas do ar na superfície foram as mais quentes já registradas em 125 anos, constatou o estudo.
“A região do Ártico tem uma poderosa influência no ecossistema da Terra como um todo”, disse Steve Thur, administrador-assistente de pesquisa da Noaa e cientista-chefe interino.
O boletim do Ártico deste ano, com 153 páginas, está sendo divulgado apesar de uma mudança na agência, incluindo um foco em aspectos comerciais do oceano, como a mineração em águas profundas.
Em abril, o governo de Donald Trump propôs eliminar o braço de pesquisa da Noaa, uma medida que prejudicaria os sistemas de alerta precoce para desastres naturais, educação científica e o estudo do Ártico. A administração Trump demitiu mil funcionários da Noaa no início deste ano, mas desde então tentou recontratar 450 deles, principalmente em sua divisão do Serviço Nacional de Meteorologia.
Apesar dos cortes orçamentários propostos, o boletim foi compilado pela agência este ano e escrito por cientistas de instituições acadêmicas de Estados Unidos, Canadá e Europa, bem como por pesquisadores da Nasa e várias outras entidades científicas federais.
A Noaa monitora mudanças na região do Ártico há 20 anos. Durante o período de estudo deste ano, houve uma quantidade recorde de precipitação, tanto neve quanto chuva, em média em toda a região.
“Ver ambos esses recordes históricos sendo estabelecidos no mesmo ano é bastante notável”, disse Matthew Druckenmiller, cientista sênior do Centro Nacional de Dados de Neve e Gelo em Boulder, no Colorado, e um dos principais autores do relatório, que foi divulgado na terça-feira (16) em Nova Orleans, durante a reunião anual da União Geofísica Americana, associação de cientistas da terra e do espaço.
“Desde 1980, as temperaturas anuais do ar no Ártico aqueceram quase três vezes mais rápido que o resto do planeta”, disse Druckenmiller. Ele disse que o aquecimento está afetando o momento e a quantidade de chuva e neve no Ártico, o que afeta a pesca, a vida selvagem e as pessoas que vivem lá.
O permafrost, uma mistura de solo, rochas e matéria orgânica que permanece congelada o ano todo, cobre grande parte da superfície terrestre do Ártico. Esse permafrost tem derretido desde o início dos anos 2000, e os pesquisadores agora descobriram produtos químicos tóxicos se infiltrando nos rios do norte do Alasca conforme o gelo se desfaz.
O fenômeno preocupante foi observado pela primeira vez em 2019 em vários rios, e agora foi visto em mais de 200 bacias hidrográficas ao norte das montanhas Brooks Range do Alasca, de acordo com Joshua Koch, hidrólogo de pesquisa do Serviço Geológico dos EUA em Anchorage.
Desde então, Koch e outros têm realizado levantamentos aéreos e por satélite do North Slope, área de aproximadamente 246 mil quilômetros quadrados que se estende da fronteira canadense até o oceano Ártico.
“Começamos a ver alguns desses riachos ficando laranja”, disse Koch. “Estas são áreas realmente intocadas que não têm impactos de minas ou da atividade humana.”
O derretimento do permafrost expôs depósitos naturais de pirita, um mineral de sulfeto de ferro, ao ar e à água, causando uma reação química conhecida como oxidação. À medida que o clima esquenta e o permafrost descongela, a água subterrânea infiltra-se nas camadas profundas do solo.
Quando os pesquisadores chegaram ao local, descobriram que a água de cor de ferrugem vinha de nascentes e encostas ricas em pirita. Eles também detectaram níveis tóxicos de alumínio, cobre e zinco, naturalmente presentes no solo da tundra, que estão se infiltrando nos cursos d’água.
“Podíamos ver lugares onde há água brotando diretamente do solo dessas nascentes”, disse Koch.
A água ácida e tóxica está matando insetos e outros organismos aquáticos dos quais dependem o salmão e outros peixes que são uma fonte alimentar fundamental para os 10 mil residentes da região.
Durante um levantamento terrestre em 2024 no Parque Nacional do Vale Kobuk, os pesquisadores descobriram que o rio Akillik mudou rapidamente de transparente para laranja no verão, matando todos os peixes e a vida aquática, segundo o relatório.
Até agora, não há evidências de que os peixes tenham sido contaminados pelos produtos químicos tóxicos, no entanto, os cientistas continuam monitorando os riachos e o salmão.
Mas, se o fenômeno dos rios alaranjados se espalhar para bacias hidrográficas maiores, como a do rio Yukon, isso pode ameaçar a indústria de salmão do Alasca, avaliada em US$ 541 milhões.






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