A mulher que viu o futuro da amazônia e não gostou – 11/01/2026 – Marcelo Leite

A mulher que viu o futuro da amazônia e não gostou – 11/01/2026 – Marcelo Leite

  • Saúde
  • 11/01/2026
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A máxima “ver para crer” comporta muitas interpretações, uma das quais eclipsada por nossa obsessão com narrativas e versões: o poder do conhecimento em primeira mão para forjar convicções. Imagens, em especial, fornecem bons mapas para encontrar o caminho certo na vida.

A quem não acredita na percepção sensível como forja de virtudes éticas, recomenda-se o romance “Orbital“, de Samantha Harvey (DBA, 192 págs.). Astronautas na Estação Espacial Internacional descobrem-se filósofos ou poetas durante a exposição contínua à beleza de seu próprio planeta.

A vulnerabilidade do grupo a 400 km de altitude, protegido do espaço —”pantera feral, primal”— por mero palmo e meio de casco metálico, decerto favorece introspecção e cismas. Mas são os sucessivos crepúsculos e auroras, em 16 órbitas a cada 24 horas, que lhes incutem um afeto visceral pela Terra.

“Talvez a humanidade esteja no derradeiro estágio adolescente quebra-tudo de autodestruição e niilismo, porque não pedimos para estar vivos, não pedimos para herdar uma Terra por cuidar, e não pedimos para estar tão completa, injusta e sombriamente sozinhos”, escreve a romancista vitoriosa do Prêmio Booker.

Noutra passagem, ela fala da escuridão sem cidades em que uma colcha de retalhos alinhavados por milhares de pontos alaranjados nos quais a floresta tropical arde, do leste do Brasil até contrafortes dos Andes. Visão apavorante, mas trouxe à mente outra mulher que acreditava no poder das revelações tecnológicas e enxergou o futuro da amazônia.

A química Clara Pandolfo (1912-2009) não gostou do que viu. Diretora de Recursos Naturais da Sudam em plena ditadura, ela deplorava o plano milico de ocupar a mata “na pata do boi” e defendia manejo sustentável de madeira em florestas públicas bem antes de ambientalistas se organizarem para defender a ideia.

A primeira vez que ouvi falar de Pandolfo foi em 2024, no livro “O Silêncio da Motosserra” (Companhia das Letras, 470 págs.), de Claudio Angelo e Tasso Azevedo. Isso depois de escrever sobre amazônia e clima por 36 anos em total ignorância do papel da paraense cuja presciência nos legou o monitoramento por satélite da devastação florestal.

Naqueles anos 1970 de má memória, o governo militar favorecia exploração pecuária para ocupar a floresta amazônica, e a Sudam dava incentivos fiscais para desmatar e abrir pastagens fadadas a degenerar, por causa dos solos pobres. Pandolfo sabia disso, mas pouco podia fazer contra a insanidade.

Havia, porém, obrigação legal de manter 50% da mata intacta (hoje exigem-se 80% no bioma). Pandolfo procurou em 1978 o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais para explorar a possibilidade de usar satélites para fiscalizar se latifundiários agraciados cumpriam a legislação. Foi a semente do Prodes, sistema que até hoje monitora essa que é a maior fonte de gases do efeito estufa emitidos no Brasil.

O livro “Clara Pandolfo, Uma Cientista da Amazônia” (MTC, 206 págs.), de Murilo Fiuza de Melo, seu neto, conta em minúcia a vida de uma das primeiras mulheres formadas em química no Brasil, que se bateu também pelo voto feminino. Leitura obrigatória para jornalistas, cientistas, romancistas e machistas em geral.

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Fonte Original do Artigo: redir.folha.com.br

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